Brasil deveria formar o dobro de engenheiros

Construção civil e petrolíferas têm falta desses profissionais. Apenas 32 mil obtêm o diploma a cada ano, na China são 400 mil

iG São Paulo | 19/12/2010 20:00

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A procura por engenheiros aumentou nos últimos anos e já começa a faltar profissionais no mercado a ponto de alguns setores até importarem essa mão de obra muito especializada. Os maiores demandas estão na construção civil e na indústria petrolífera. Professores e profissionais da área dizem que essa falta de engenheiros é o número reduzido de alunos que se formam nessa carreira por ano. Segundo dados Conselho Federal de Engenharia Arquitetura e Agronomia (Confea) existem 712,4 mil engenheiros no país. De acordo com estudo do Conselho Nacional da Indústria (CNI), para dar conta da demanda por esses profissionais, seria necessário formar 60 mil engenheiros por ano no Brasil. Mas o que acontece no Brasil é que que apenas 32 mil obtêm este diploma a cada ano. Sem o número suficiente de profisisonais e u]com o mercado de contratações aquecido, a carreira acabou sendo a mais valorizada em 2010, segundo levantamento do iG Estágio e Trainee.

Engenheiros formados por ano     
País Formados     
China 400 mil  
Índia 250 mil  
Rússia 100 mil  
Coréia do Sul 80 mil  
Brasil 32 mil  

Comparação - O diretor da Faculdade Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) José Roberto Cardoso compara o número anual de formandos do Brasil com o de outras nações do bloco Brics (inicial dos países emergentes, Brasil, Rússia, Índia e China) e também com a Coréia do Sul, que fez uma “revolução educacional e obteve resultados em pouco mais de 20 anos”, diz.

Saiba mais: Essa defasagem faz com que o salário dos engenheiros sejam mais valorizados. Especialistas apontam que faltam até candidatos nos vestibulares para essa carreira. E a maioria que começa o curso na faculdade acaba desistindo no primeiro ou segundo ano. Preocupadas com a falta de mão de obra, muitas empresas tomam iniciativas para complementar a formação dos engenheiros, como é o caso da construtora Gafisa. Especialistas também estudam uma mudança no curso para incentivar os estudantes e também melhorar a formação. 

Oito anos para dar conta das obras do PAC
Segundo o levantamento da CNI vão faltar 150 mil engenheiros já em 2012 no Brasil. A situação é mais grave nas contas do diretor da Politécnica da USP. Ele estima que para cada milhão de dólares investido no país há a necessidade de se criar uma vaga para engenheiro. “Só para as obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento do governo federal) estão previstos 250 bilhões de dólares em investimentos, o que cria uma demanda de 250 mil engenheiros. No ritmo que estamos, levaria oito anos para ter esses profissionais”, diz o diretor.

Para Marcos Formiga, coordenador do projeto Inova Engenharia da CNI/Senai, que se destina a incentivar a formação de engenheiros, ainda é preciso levar em conta as descobertas das reservas de petróleo e gás do pré-sal e os preparativos para o país sediar a Copa do Mundo em 2014 e os Jogos Olímpicos em 2016. Segundo o coordenador as áreas de construção civil e a de petróleo são as que mais vão oferecer vagas a engenheiros nos próximos anos. “O Brasil ainda verifica um êxodo de engenheiros da área de informática e uma importação na área de telecomunicações”, diz.

Foto: Divulgação

Trainee de engenharia da Votorantim: aumento da demanda em vários setores

Salários de engenheiros são os mais valorizados
Um dos primeiros itens a refletir esse aumento da procura por engenheiros é o salário, que vem aumentando nessa profissão. Segundo o diretor da Poli-USP, José Roberto Cardoso, no ano 2000 um recém formado ganhava 1,5 mil reais, “agora programas de trainee pagam 4,5 mil reais a engenheiros”, afirma. O último levantamento salarial da Catho Online, com base no mês de outubro de 2010, confirma essa tendência. A pesquisa mostra que oito áreas de engenharia estão entre as dez profissões com maior aumento salarial no ano. Engenharia geológica e cartográfica lidera os aumentos com 17,6%, seguida de mecatrônica (14,5%) e de civil, qualidade, de obras, naval, minas e meio ambiente, todas com mais de 11% de aumento salarial.

Na mesma pesquisa, a Catho identifica os setores da economia que pagam salários acima da média nacional. Os dois primeiros estão ligados à indústria petrolífera nas áreas de mineração e extração, com 32,3% acima da média, e refinarias, 24% .

Faltam até candidatos a engenheiros
Se o mercado está valorizando a profissão de engenheiro, o mesmo não acontece com os estudantes na hora de escolher uma profissão. De acordo com Renato de Oliveira Moraes, diretor de educação da Fundação Carlos Alberto Vanzolini, mantida pelos professores da Poli-USP, é normal que algumas áreas sejam preferidas de tempos em tempos, “como eletrônica foi nos anos 80, computação nos 90 e as de telecomunicações e petróleo agora”. Mas o que se vê hoje é um desinteresse pelas vagas de engenharia como um todo. Segundo dados do Instituo Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), do Ministério da Educação, existem 400 mil universitários de engenharia nas 400 faculdades da área no Brasil. A cada ano, os vestibulares oferecem 197 mil vagas, mas apenas 120 são preenchidas, ficando então já no primeiro ano do curso 77 mil vagas desocupadas. Marcos Formiga, da CNI, afirma que faltam até candidatos a engenheiros. “A relação candidato vaga média no Brasil é de dois para um no Brasil”, diz.

Desistência dos alunos chega a 60%
Segundo José Roberto Cardoso, diretor da Poli-USP, a desistência dos alunos durante o curso é muito grande. “A evasão chega a 60% e acontece no primeiro e no segundo ano principalmente”, diz. Ele justifica isso pelo alto custo de uma faculdade particular e pela formação deficitária do estudante no ensino médio que, em muitos casos, tem dificuldade para acompanhar o curso.

Os professores de engenharia reclamam de uma preferência dos alunos pela área de humanas. “Há no Brasil uma síndrome de matemática”, diz Formiga, da CNI. A desistência nos primeiros anos seria prova disso, pois é quando os alunos têm as disciplinas básicas de cálculo. Mas as notícias de interesse maior das empresas pelos engenheiros e das ofertas de trabalho têm mudado o ânimo dos estudantes. “Os alunos estão mais animados, há uma boa perspectiva de emprego hoje, coisa que não acontecia anos atrás. Isso incentiva”, afirma Cardoso, diretor da Poli.

Proposta de mudança no ensino de engenharia
De acordo com Marcos Formiga, coordenador do projeto Inova Engenharia da CNI/Senai, é preciso também encontrar outras saídas para estimular os alunos, diz. Segundo ele, uma das ações do projeto Inova é propor um estudo para modernizar o ensino de engenharia. “Poderia ser de três anos de graduação com mais um e meio de mestrado técnico, como é na Europa, por exemplo”, afirma.

Programas de trainees complementam a formação
As empresas são uma das maiores interessadas em ter profissionais bem formados e começam a fazer sua parte. O complemento da formação é feito nos programas de estágio e principalmente de trainee, diz Renato de Oliveira Moraes, diretor de educação da Fundação Carlos Alberto Vanzolini. Ele ainda destaca iniciativas como a Universidade Petrobras, iniciativa adotada também em outras companhias, que capacita os profissionais da empresa para atuar no setor. Esses programas das empresas são voltados para a capacitação do engenheiro à área de gestão e não na formação técnica. Eles passam a ser treinados para trabalho em equipe, análise de mercado, visão estratégia, comunicação e administração.

 

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